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Não matarás!

Entrevista de Michel Schooyans pelo Padre Nuno Serras Pereira, ofm

Lisboa, maio 2000

PN – Nos seus livros, aparece que V. é muito sensível às questões da liberdade, e ao contrário, também do totalitarismo. Numa das suas obras, "L´avortement: enjeux politiques" chega mesmo a dizer que se prepara um "império totalitário" sem precedentes na história da humanidade. E que no entanto, isso é disfarçado por uma ideologia que mascara a sua verdadeira finalidade e os seus verdadeiros objectivos. Poderia comentar e explicitar melhor essa questão?

MS – Estamos vivendo numa época em que o totalitarismo soviético foi oficialmente derrubado. Agora, acontece que a ideologia totalitária soviética e de inspiração comunista sobrevive às instituições soviéticas nas quais este totalitarismo estava encarnado. Ao mesmo tempo em que se assiste a aquele fracasso do sistema soviético de governo , nós estamos assistindo ao surto da tendência totalitária da ideologia neo-liberal.

Agora, quando vemos as duas ideologias – digamos a comunista de um lado, a neo-liberal do outro lado – constatamos que à primeira vista, tem uma grande diferença entre as duas, que tem quase que uma oposição. Entretanto, na realidade, tem um traço comum, uma característica comum às duas ideologias: as duas ideologias exaltam à luta, exaltam uma forma de sobrevivência do mais forte. A luta de classes, por exemplo no sistema comunista, consagra a vitória do mais forte. De acordo com Marx, os burgueses, numa certa fase da história, tiveram razão porque eles conseguiram derrubar a nobreza; mas logo a seguir, o proletariado está se tornando cada vez mais forte, e vai acabar com a burguesia, motivo pelo qual ele vai ter razão na história. Esta ideia da luta de classes é muito central no sistema marxista e na sua encarnação comunista.

Entretanto, quando vemos o que se passa na ideologia neo-liberal, encontramos exactamente a mesma dinâmica: vemos a dinâmica da concorrência ferrenha, da sobrevivência. O que é o mercado? É um campo de batalha onde se opõem as forças das diversas, as forças dos mais fracos e dos mais poderosos. E quem sobrevive, quem tem direito de sobreviver nesse mercado são justamente aqueles que têm a capacidade de consumir e de produzir. "Os outros que se danem!", como se diz familiarmente. Então precisamos perceber com muita clareza que hoje em dia estamos numa situação onde o dinamismo da ideologia comunista soviética e o dinamismo da ideologia neo-liberal se conjugam, se somam, para constituir uma espécie de consagração da violência institucionalizada.

E é justamente onde a situação do cristão é crucial, porque a dinâmica do Evangelho é exactamente o contrário daquilo. A dinâmica do Evangelho é uma dinâmica de defesa do mais fraco, o que recusam tanto a ideologia comunista como a ideologia neo-liberal. Para essas duas ideologias, a natureza é violenta e deve consagrar a vitória do mais forte através de uma selecção natural e/ou artificial, através da luta de classes, através da concorrência. Mas em todos os casos, se trata de consagrar a supremacia do mais forte, enquanto que para os cristãos, e inicialmente para o próprio Cristo, o que importa é a dignidade de todos os seres humanos qualquer que sejam a sua condição física, o seu tamanho, a cor de pele, a idade, e assim por diante. Basta ler os textos que se lêm na liturgia dos Domingos. Aparecem muitas vezes re relatos de curas. Jesus se aproxima dos doentes, se aproxima daqueles que a sociedade rejeita, e essa gente procura Cristo, justamente porque eles percebem que uma coisa nova está acontecendo na história. Enquanto que os doentes, os aleijados, os pobres estavam afastados, expulsos da sociedade, Cristo se aproxima deles. Ele é o Bom Samaritano que se aproxima, que toma a iniciativa de se aproximar deles.

É justamente o drama do nosso tempo, que a sociedade rejeita esta mensagem de Cristo. Porque de acordo com a "vulgata" ideológica dominante, o pobre, o marginal, o aleijado, não valem nada já que são inúteis na sociedade. E nós cristãos, justamente o que devemos fazer é fazer o que o Cristo fez, isto é, restituir àquela gente, reconhecer a aquelas pessoas marginalizadas, fracas, doentes, aleijadas, uma dignidade igual à dignidade de todos os demais seres humanos. A nossa ética cristã, nesse particular, é uma ética que contraria terminantemente a ética hedonista, a ética utilitarista, que a gente encontra tanto na tradição marxista, como também na tradição liberal.

PN – Costuma-se dizer que o problema talvez mais grave dos dias de hoje é o problema do aborto e da sua legalização, e que isso, de algum modo, corrompe ou destrui mesmo a democracia. Quer desenvolver esta questão e mostrar porque é que conduz ao tal totalitarismo sem precedentes na história? Que diferença há entre este totalitarismo que se prepara e o Estado totalitário que foi, digamos assim, combatido ao longo do século passado?

MS – Na linha do que acabamos de comentar, aparece de facto a questão do aborto. Essa não é apenas uma questão entre muitas outras na reflexão sobre a evolução dos costumes, a evolução das leis e assim por diante. O caso do aborto é realmente paradigmático, é exemplar, é revelador de uma evolução altamente preocupante na sociedade e na sua maneira de pensar. De fato, quando se estuda um pouco a história da democracia, constata-se que a característica essencial da democracia consiste justamente no reconhecimento da igual dignidade de todos os seres humanos. É a questão da universalidade dos direitos humanos. Universalidade proclamada solenemente em 1948, na Declaração Universal dos Direitos Humanos e em muitos documentos constitucionais ou legais. Agora, quando uma sociedade que se pretende democrática, decide que o ser humano nascituro, como se diz, isto é antes do seu nascimento, que este ser humano pode ser abortado, eliminado, esta sociedade introduz na dinâmica democrática uma excepção que, na realidade, destroe o princípio da universalidade dos direitos humanos. A partir de tal decisão, ha uma categoria de seres humanos —os nascituros—que não têm a mesma dignidade que os demais, já que a lei, en vez de protegê-los, autoriza a sua eliminação.

Mas uma sociedade onde isso acontece é uma sociedade que já entrou num processo de totalitarismo, porque esta sociedade se reserva o direito de definir e decidir quem pode viver e quem pode ser eliminado. E se este "direito" se extende ao caso do não nascido, não há motivo para que o catálogo das excepções não se multiplique, o que de facto se observa. Por exemplo, na Holanda e em vários países da Europa ocidental, já se pratica a eutanásia de pessoas idosas, e nada impede que mais tarde se eliminem os menos válidos, os deficientes de todo o tipo, e os dissidentes políticos, etc.

Daí resulta que a nossa sociedade entrou realmente numa dinâmica de tipo totalitário e a ilustração disso, a concretização disso, se verifica na evolução do Direito. O Direito torna-se simplesmente um positivismo jurídico, isto é emana simplesmente da voz dos mais fortes, da voz da maioria. A maioria que tem esse poder de impor a sua vontade, decide quem é admitido a viver e quem pode ser encaminhado para a morte. É uma sociedade realmente totalitária. É Um totalitarismo brando, manso, subtil, que está sendo propalado, mas é um totalitarismo de tipo novo que eu chamo, aliás, um "ultra-nazismo", porque esse totalitarismo consagra, potencializa, o totalitarismo nazista com o totalitarismo comunista e o neo-liberal.

PN – Há uma perversão não só no Direito mas também na Medicina...

MS – Há também uma perversão da Medicina, de facto. Mas antes de abordar este tópico, gostaria de insistir ainda sobre a perversão do Direito. Na perspectiva do positivismo jurídico, que acaba de ser evocado, não há mais distinção entre o Direito Natural e o Direito Positivo. Quando se frequenta os grandes autores que fizeram as primeiras teorias da democracia europeia, se nota por exemplo que, no caso do filósofo Locke, do século XVII, o homem tem direitos na sociedade de natureza; tem direitos naturais. E quando o homem entra na sociedade política, ele mantém os direitos que ele tinha na sociedade natural. Então, a sociedade civil e a sociedade política têm como incumbência proteger aqueles direitos que o homem tem na sociedade natural. Isto significa que na base da democracia ocidental, o homem é reconhecido como titular, como sujeito de direitos inatos, de direitos dos quais ele não pode ser privado, e que esses direitos devem ser protegidos pelas instituições políticas e jurídicas. Hoje em dia, isso tudo está sendo questionado em nome, justamente, de um positivismo jurídico que considera que os direitos humanos são simplesmente o produto de uma espécie de concessão da maioria. Isso significa que a democracia entrou num processo de perigo, está periclitando.

PN - O mesmo pode se dizer em relação à Medicina?

MS - O caso da Medicina é muito parecido. Quando existe esta discriminação entre os seres humanos, evidentemente a Medicina também vai se aproveitar daquela situação para favorecer a transmissão da vida dos seres supostamente mais capacitados, mais "úteis" na sociedade de produção e de consumo, e vai-se dedicar também à eliminação dos mais fracos. Isto significa que a Medicina vai ser o artífice de uma sociedade onde vai predominar o eugenismo e onde a própria transmissão da vida vai ser dominada por critérios totalmente hedonistas, utilitários e mercantiles.

Segue-se que numa sociedade como esta, o médico já não está mais ao serviço dos mais fracos, como á era o caso desde a Antiguidade, com Hipócrates, por exemplo. Daqui em diante, o médico vai dedicar os seus cuidados de acordo com os interesses dos mais fortes, dos mais ricos, ou inclusive, nalguns casos, de acordo com os interesses da sociedade e do Estado. Não podemos esquecer que durante o século passado, eu quero mencionar aqui o século XX, muitos médicos se dedicaram a tratamentos psiquiátricos degradantes, na União Soviética, por exemplo; que outros, na Alemanha nazista, se dedicaram à selecção, à esterilização, à eutanásia, à eliminação dos considerados como inúteis; que em muitos países da Ásia, da América Latina e também da Europa, médicos se dedicaram ao serviço da tortura. Quer dizer que, muitos médicos em vez de se empenharem ao serviço e ao cuidado dos mais vulneráveis, se dedicaram aos interesses do poder ou da sociedade. E hoje em dia, não se trata apenas de se dedicarem aos interesses dos poderosos ou da sociedade; se trata também de se dedicar aos interesses de companhias comerciais.

Hoje em dia, quando se acompanha temas discutidos no âmbito da Organização Mundial de Saúde, constata-se que alguns estão querendo outorgar os cuidados médicos proporcionalmente ao poder aquisitivo, muito variável, da gente, da população, das populações. Isso significa que na mentalidade de alguns dos líderes da Medicina actual, a saúde seria uma espécie de produto que se compra de acordo com o poder aquisitivo que se tem. Isso evidentemente, significaria que a Medicina se tornaria um instrumento poderoso de controle e de dominação dos mais pobres.

Aliás, é bom destacar nesse particular que, agora mesmo, nas regiões pobres de América Latina, por exemplo, médicos estão a ser utilizados para esterilizar massivamente populações femininas consideradas como pobres e como inúteis no mercado de trabalho. Mulheres consideradas como indignas de transmitir uma vida que seria uma vida inútil, que seria um pesadelo para a sociedade. Das mulheres brasileiras que utilizam um método qualquer de contracepção, de controle da natalidade, mais de 40% já foram esterilizadas. O mesmo se dá no México. Isto significa que tem muitos médicos que cooperam com este tipo de programa discriminatório, que em vez de acabar com a pobreza, prefere acabar com os pobres.

PN – Os defensores do aborto falam em nome da protecção da mulher, falam sempre de casos dramáticos e de situações limite. Contudo, se o entendo bem, o problema fundamental do aborto não é este. Obedece a estratégias internacionais, em particular a dos controladores demográficos, e há aqui uma espécie de violência absoluta que se impõe na sociedade...

MS – Sim, sim, seguramente o problema do aborto, fundamentalmente é um problema muito simples: é a questão de saber se vamos rechaçar o preceito inscrito no coração de todos os homens, isto é, "Não matarás". O Santo Padre, na sua viagem ao Monte Sinai, destacou este preceito. Em substância, ele diz o seguinte: se não respeitamos o preceito "Não matarás", a sociedade humana se torna impossível, a convivência humana se torna impossível, porque se cada um se reserva, se outorga o direito de dispor "livremente" da vida dos outros, então a sociedade se torna anárquica. Ora, uma sociedade anárquica é necessariamente uma sociedade onde prevalece a violência dos mais fortes; é uma sociedade sem norma ética a não ser a violência; é uma sociedade bárbara.

Então devemos considerar que as formas exteriores da barbárie podem evoluir; já não são mais necessariamente as formas evidentes que a gente conheceu na história recente, mas hoje em dia tem novas expressões, novas manifestações, da mesma dinâmica bárbara. E é justamente uma das nossas responsabilidades chamar a atenção sobre essas novas formas.

Agora, no que respeita ao caso específico do aborto, gostaria de mencionar uma coisa que é fundamental. Porque o caso do aborto é um caso único na problemática dos direitos humanos, já que o aborto é a morte deliberadamente infligida ao ser mais inocente. É isso que, muito curiosamente, nas nossas sociedades se conseguiu transgredir. Alguns espíritos "valentes", celebrados, homenageados, pelos media, celebraram a transgressão: "Não matarás". Alguns espíritos "intrépidos" começaram a impor a morte ao ser humano mais inocente que se possa imaginar. E não é só isso: este ser inocente, totalmente indefeso, foi acusado de males! O ser inocente não nascido foi acusado de ser o resultado de uma gravidez não desejada; foi acusado de ser um empecilho à prosperidade, à carreira; foi acusado de todos os males da humanidade, inclusive do atraso em matéria de desenvolvimento.

Tudo isso é profundamente escandaloso, e nos mostra mais uma vez o quanto a humanidade é sensível à imitação. É o desejo mimético, o famoso desejo de imitação. Os outros fazem isso. Projectamos a culpabilidade num bode expiatório – no caso particular que mencionamos é o caso do nascituro, da criança não nascida – e então, essa criança inocente é apresentada como culpada de uma situação, ou de várias situações, na qual a responsabilidade dessa criança é nula! Mas se invoca, se acusa essa criança de ser responsável da situação em questão e, por conseguinte, se condena e se elimina a criança, e se considera que podemos dispor da vida desse criança considerada como a causa de todos os males da humanidade. Isso se chama a "violência primordial". Quando uma lei autoriza o massacre dos inocentes, quando uma lei numa sociedade democrática autoriza este massacre dos inocentes, nós devemos constatar que esta sociedade já se tornou uma sociedade totalmente bárbara, na qual tudo se torna possível. E de facto, é isso que acontece. Hoje em dia se considera que a esterilização massiva dos pobres é uma coisa muito normal. Hoje em dia se considera que a eutanásia é uma coisa muito normal. Hoje em dia se considera que a experimentação, a vaidade, a fome do lucro justificam todas as manipulações. E vamos ver que nessa sociedade onde todos seguem o que diz a maioria, imitando a maioria, uma sociedade dessas vai acabar, e já está acabando, dando como resultado uma sociedade totalmente desumana.

Então, no caso específico dos cristãos, o nosso dever é de considerar a situação do próprio Cristo, porque o Cristo era o inocente, um inocente absoluto, sem mancha, o Cordeiro de Deus. Ele foi martirizado, Ele foi crucificado, precisamente porque Ele era inocente. A inocência d’Ele era uma coisa intolerável para os fariseus, para os escribas, para o establishment. A atenção que Ele dava aos mais fracos, aos mais débeis, era uma coisa totalmente inusitada, escandalosa para aquela gente.

Mas o que fez o Cristo é aquilo que nós também devemos fazer: ir a contra-corrente numa sociedade que não quer aceitar a inocência do inocente, a inocência primordial do ser não nascido que justamente grita pelo seu próprio silêncio, que grita a sua inocência e que está esperando da nossa parte apenas uma coisa: que nós nos tornemos para ele o Bom Samaritano. Isto é, que imitemos o Cristo, porque na parábola o Cristo se apresenta sob os traços do Bom Samaritano. E que é que faz o Bom Samaritano? Ele não se refugia numa casuística de definições para saber quem é ou quem não é o próximo. Ele toma a atitude prática de quem se aproxima e de quem reconhece neste ser ínfimo, neste ser nos primórdios da sua existência, neste ser cuja existência individual já conseguimos felizmente detectar muito cedo, o Samaritano reconhece, o cristão reconhece um ser que tem a mesma dignidade que a minha dignidade. Como eu, este ser recebeu de Deus a existência. Não é uma fraternidade por decreto. Ele é o meu irmão, porque justamente ele como eu recebemos a existência do mesmo Deus cheio de bondade. Isto, evidentemente, vai em contra da ética naturalista da qual falámos, isto é, uma ética da força e da violência; aqui estamos na presença de uma ética do amor e da ternura. Essa é a ética do Cristo. Não é uma coisa teórica; é uma atitude: "Ide e haja da mesma forma".

PN – Concluo daquilo que acaba de dizer que há não só uma perversão do Direito e da Medicina, mas que também há da própria política. Nesse sentido os políticos têm uma responsabilidade grave na legislação. Gostava de perguntar se não lhe parece que há uma cooperação formal no mal a quem aceita, ou vota, ou defende leis que legalizam o aborto?

MS – É uma coisa totalmente inadmissível que um legislador, seja ele cristão ou não, admita uma lei que, de certa forma, organiza o aborto, isto é, a eliminação cobarde de um ser humano na sua situação de total inocência e de total falta de defesa. De tal modo que convém chamar a atenção dos políticos sobre isso. Será que eles vão ser medrosos até legalizar este tipo de acção ou de gesto? É uma coisa inimaginável mas que infelizmente se verifica nalguns países. Ahora, acontece que devemos considerar sobretudo que isso não é primeiramente um problema de ética cristã; é um problema de ética natural, porque todas as nossas sociedades civilizadas são fundadas sobre o fato que a vida humana deve ser respeitada. O caso de Hipócrates é muito significativo, e a obra de Cícero, por exemplo, para citar exemplos muito famosos, gira em torno disso. Toda a nossa sociedade, o Direito Penal, mas sobretudo o Direito Civil também, são todos organizados em torno do respeito pela vida humana e do respeito, aliás, da instituição familiar, na qual a vida normalmente é acolhida e educada.

Então, a tarefa magnífica que têm os políticos hoje, é de serem os protectores destes capital extraordinário que é a vida humana. A nobreza da tarefa do homem político de hoje, do representante político de hoje, é justamente de ser aquele que resiste às pressões do ambiente, que resiste ao mimetismo dominante, que resiste à violência contagiosa, imposta muitas vezes através dos media, que banalizam a violência, o divórcio, o aborto. A nobreza da tarefa do político é de ser guardião do valor fundamental que é a vida humana.

Neste particular, o político deve ser um pouco um contestatário das ideias e das tendências actualmente dominantes. Se ele não fizer isso, se ele for apenas uma caixa de ressonância do que diz a massa que repete, que imita os gritos bélicos que andam sendo gritados contra os mais débeis, então não vale a pena se engajar na política, porque a massa já vai fazer este serviço. Os representantes do povo não são meros seguidores do povo; eles são líderes do povo. Eles devem indicar ao povo os caminhos do respeito do ser humano e devem indicar também aos cidadões, às nações, às populações, os becos sem saída e os caminhos que podem levar a uma sociedade bárbara de novo estilo.

Me parece que isso merece ser destacado também já que a "lei da maioria" deve ser manejada com muito cuidado. Porque, veja, no ano de 31 em Itália, 90% dos professores universitários apoiaram Mussolini. Aqueles que deviam ter sido os profetas, os vigias, chamando a atenção sobre os perigos que estavam se perfilando, em vez disso, eles caíram na imitação da massa e fizeram como todo o mundo fazia, isto é, aprovaram os programas de Mussolini. E o mesmo aconteceu também na Alemanha. Isto significa que a maioria por si só não é um critério de verdade. A maioria pode votar uma lei perversa.

PN – Nós às vezes aqui em Portugal ouvimos dizer que o aborto é uma questão da consciência de cada um. Alguns políticos argumentam assim...

S – Isso é uma argumentação idiota e inadmissível porque então, se tal for o critério, eu posso também dizer: "Bom, eu vou roubar o meu vizinho porque a minha consciência me autoriza a roubar o meu vizinho"; "Eu vou envenenar a minha sogra porque a minha sogra me enche a paciência". Isso são critérios de uma debilidade mental total, porque a gente não pode governar uma sociedade a partir de uma recusa de princípios morais elementares como é o princípio que reza o respeito da vida humana. Porque se o respeito da vida e dos bens do meu vizinho depender da minha consciência subjectiva, isto significa que não há mais nenhuma norma ética na sociedade, e que a lei é –voltamos ao que estávamos dizendo– simplesmente o reflexo da vontade dos mais fortes. Mas nesse caso, os mais fracos não têm futuro, não têm mais existência, não têm mais direito nenhum.

Então a gente deve saber qual é a sociedade que queremos. E não podemos ter uma sociedade de solidariedade e de liberdade para todos se não houver uma relação íntima entre a lei e a moral. Isso é uma coisa muitas vezes negada hoje. Evidentemente, a lei não resolve todos os problemas, de acordo. Mas tem alguns princípios fundamentais, como o respeito de todos os seres humanos, a igualdade de todos os seres humanos, que numa sociedade civilizada e numa sociedade democrática devem ser respeitados e protegidos pela lei.

O documento ao qual me referia antes, a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 48, não é de modo algum um documento jurídico, é um documento moral. Mas é um documento moral que convida a várias aplicações no sector das legislações nacionais. Por exemplo, o respeito da vida de todo o indivíduo humano – é o artigo 3º da Declaração – esse direito de todos os indivíduos humanos à vida deve ser traduzido em todas as legislações nacionais, mas é sempre a mesma referência ao mesmo valor, isto é, a vida humana, que está protegido através da legislação.

PN – Há algumas circunstâncias em que um político católico, digamos assim, possa votar uma lei abortista? Nenhuma, nenhuma, nenhuma circunstância? A vida do ser humano inocente deve ser respeitada: pronto! Não tem como discutir isso, tal é a posição da Igreja e tal é a sua posição. Entretanto, alguns invocam o número 73 da Encíclica Evangelium Vitae do Papa João Paulo II, para afirmar que os católicos, por exemplo os parlamentares, podem votar uma lei liberalizando o aborto, ou a eutanásia, para conter o aborto dentro de certos limites.

MS – Esse nº 73 de Evangelium Vitae muitas vezes sofre com uma interpretação totalmente distorcida e não raramente sofísticamente distorcida. Muitas vezes se apresenta esse número como dando a aprovação do Santo Padre à assim chamada "lei do mal menor". Isto é, que um político católico poderia, por exemplo, votar uma lei autorizando o aborto digamos até 15 semanas, para evitar uma lei que autorizasse o aborto, digamos, até 20 semanas –isso para explicar simplesmente o caso. Mas é evidente que a gente não pode preconizar uma lei ruim, no caso uma lei criminosa, para evitar uma lei mais criminosa ainda.

Aliás não é isso que diz o texto da Evangelium Vitae no seu nº 73. Quando a gente lê atentamente, e com boa fé, o nº 73, aparece com perfeita nitidez uma coisa diferente. O que diz o nº 73 é o seguinte: se existe uma lei autorizando, digamos, o aborto a 20 semanas, o deputado, o político católico pode lutar para que o prazo de 20 semanas venha a ser reduzido a 15 semanas, justamente para diminuir, através desta modificação da lei, o alcance nocivo de uma lei na qual ele não colaborou inicialmente. É isso que diz o famoso nº 73 da Encíclica, muitas vezes utilizado de maneira desonesta, inclusivamente por políticos católicos.

PN – Fora dessa circunstância, o político católico que vota ou que defende uma lei abortista opera formalmente no mal...

MS – É claro; ele dá uma cobertura legal ao assassínio, à eliminação de um ser humano inocente, o que é uma coisa totalmente imoral. Nessas matérias temos interesse em ter uma grande clareza. Essa clareza é libertadora; nos livra de uma casuística que acaba justificando todas as formas de novas opressões, de opressões escondidas que começam com as palavras assassinas, e depois se passam nas salas de operação, ou que se passam em outros contextos parecidos.

PN – Para terminar gostava de lhe pôr uma pergunta sobre a relação entre a contracepção e o aborto. Há pessoas que afirmam que a melhor forma de prevenir e combater o aborto seria promover a contracepção.

MS – A contracepção e o aborto... Primeiro vamos ver o que aparece a partir das estatísticas. Nos países onde a contracepção está mais difundida – na Europa são países como a Itália, a Espanha, a França – constatamos que a divulgação massiva da contracepção não diminuiu o número de abortos. Na França por exemplo, onde a porcentagem das usuárias de contracepção é um dos mais altos do mundo, observamos também um dos mais altos níveis de ocorrências de abortos. Isto, mais de vinte anos após a legalização do aborto.

Mas tem uma explicação muito mais simples e muito mais compreensível do ponto de vista psicológico: a contracepção deve ser totalmente eficaz; se ela não for eficaz a gente deve recorrer ao aborto. A lógica do aborto e a lógica da contracepção são duas lógicas que se complementam. É uma coisa muito simples. Quando falham os processos contraceptivos, o aborto aparece como a solução que se impõe. De tal modo que é da mesma atitude fundamental de recusa à vida que procedem tanto a contracepção como o aborto.

Isto é confirmado por estudos que justamente evidenciam que o número elevado de abortos resulta de contracepções fracassadas. Entre as duas coisas, ha uma relação que ninguém hoje pode negar. Eu sei que tem gente que está querendo ocultar essa relação ou dissociar totalmente as duas coisas, porque tal é o seu interesse. Mas a análise séria desses dois tipos de comportamento revela, ao contrário, a complementaridade quase que natural entre esses dois procedimentos.

PN – Consta também que muitos desses contraceptivos acabam também por ser abortivos...

MS – Sim, sim. Isto é uma coisa que ninguém contesta hoje em dia. Actualmente, a maioria das preparações contraceptivas hormonais podem apresentar efeitos abortivos muito precoces, que a mulher não percebe. Dependendo do momento do ciclo, os contraceptivos actuais podem impedir a fecundação; podem –ao modificar o muco cervical– obstar ao encontro do espermatozoide e do óvulo; podem impedir a nidação e podem também provocar a expulsão do ser humano recém-concebido ou recém-nidado. Agora, evidentemente, como a mentira impera em muitos sectores, as bulas de contraceptivos não sonegam essas informações, de tal modo que muitas mulheres abortam de facto sem saber exactamente o que se lhes acontece.

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